Créditos de carbono na agricultura

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O mercado de créditos de carbono é um sistema de negociação onde pessoas ou empresas compram e vendem créditos de carbono para compensar as suas emissões de gases de efeito estufa. Só em 2022, o mercado de créditos de carbono movimentou mais de €865 bilhões. O crédito de carbono nada mais é do que uma tonelada de CO2 equivalente que foi removida (ou sua emissão reduzida) da atmosfera. Um crédito de carbono pode ser gerado a partir de diferentes tipos de atividades: conservação de florestas, reflorestamento e sequestro de carbono no solo são exemplos. Aqui nosso foco é na geração de créditos de carbono a partir do sequestro no solo, que ocorre tanto em áreas de agricultura como de pecuária. 

Projetos de créditos de carbono na agricultura são focados na remoção de gases de efeito estufa da atmosfera, especificamente o dióxido de carbono (CO2), pelo processo da fotossíntese. A fotossíntese fixa o CO2 da atmosfera, que é reduzido para formar compostos orgânicos e fazer parte dos tecidos vegetais. Quando os tecidos vegetais começam o processo de decomposição, o carbono é liberado pela respiração dos microrganismos e parte dele pode ser sequestrado no solo. Práticas agrícolas que promovem um aumento no crescimento vegetal e, consequentemente, um maior aporte de carbono ao solo pelo processo da decomposição são primordiais para o sucesso na geração de créditos de carbono. O processo de sequestro de carbono no solo é um processo demorado e por este motivo, os projetos de geração de créditos de carbono são de longa duração, de 10 a 30 anos. O projeto começa com a adoção por parte dos produtores agrícolas de práticas conservacionistas que promovem o sequestro de carbono no solo, seguindo as diretrizes de metodologias internacionais. 

Os desenvolvedores de projetos de crédito de carbono geralmente são empresas ou pessoas jurídicas que tem o conhecimento suficiente do funcionamento de todo o processo e que são capazes de levar a cabo os projetos por um longo período. Estes gestores geralmente vão em busca de agricultores e/ou pecuaristas que desejem começar a adotar práticas conservacionistas e serem pagos pelos créditos gerados. Há um acordo entre as partes e geralmente os gestores são encarregados de toda a parte burocrática e os produtores do processo no campo. Os gestores começam com a avaliação geral da situação atual da fazenda, tanto no quesito legal como ambiental. Após a aprovação de elegibilidade, a amostragem de solo, para conhecer o estoque atual, é o seguinte passo. O valor inicial do estoque de carbono serve como ponto de partida e referência para saber quanto de carbono tem o solo da fazenda. Após um determinado período, que podem ser três ou cinco anos, o estoque de carbono é medido novamente e aqui pode acontecer a primeira emissão dos créditos (também conhecido como ‘issuance‘). Os créditos são gerados pela diferença entre o estoque medido, por exemplo no ano cinco, e o estoque inicial ou a linha de base no ano 1. Esta diferença deve ser dividida pelo número de anos e depois multiplicada por 3.67 (relação entre a massa atômica do carbono e a massa molecular do dióxido de carbono) para obter uma quantidade em toneladas de CO2eq por hectare e por ano. 

A geração de créditos de carbono na agricultura e pecuária envolve todo um processo de auditoria (validação e verificação) por partes independentes, que certificam que todo o processo de geração está aderente com as diretrizes internacionais.  Somente após o processo de validação e verificação, o projeto de carbono pode ser registrado e começar o processo de emissão de créditos. No âmbito internacional, uma das mais conhecidas verificadoras é a Verra, que possui várias metodologias para geração de créditos de carbono em vários setores e que atua no mercado voluntário. A metodologia VM0042, Agricultural Land Management (ALM), que faz parte do Verified Carbon Standard (VCS), é a mais utilizada para geração de créditos de carbono na agricultura e pecuária. Assim, as pessoas físicas ou jurídicas e empresas interessadas na aquisição de créditos de carbono, podem ter certeza de que uma mitigação real de gases de efeito estufa está acontecendo. Nos projetos de carbono também são utilizadas fórmulas para contabilizar emissões de N2O e CH4, que depois são contabilizados como CO2eq.

A geração de créditos de carbono na agricultura e pecuária é um processo complexo, porém, pode ser visto como um sistema de incentivo para que produtores agrícolas e pecuaristas tenham acesso a este benefício econômico e possam ser mais sustentáveis. Vale lembrar que adotando práticas conservacionistas, não somente podemos gerar créditos de carbono, senão também obter benefícios secundários, como a melhora da condição do solo como um todo, aumento da retenção de água, redução da erosão e a resiliência do sistema para fazer frente as mudanças climáticas. 

Published on: January 5, 2024

Nélida Silvero

Engenheira Agrônoma, Dra. em Solos e Nutrição de Plantas


Nélida Silvero é Agrônoma e Cientista de Dados na equipe de Ciência da Agoro Carbon Alliance. Nélida realizou seu Doutorado em Solos e Nutrição de Plantas na Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’, com um breve estágio de pesquisa na Iowa State University. Também fez um estágio de pós-doutorado na Rothamsted Research da Inglaterra antes de se juntar à Agoro Carbon, em janeiro de 2023. Sua pesquisa esteve sempre relacionada ao estudo da variabilidade espacial do solo e hoje contribui com o delineamento de amostragem para carbono no solo, modelagem biogeoquímica e estratégias para adoção de práticas conservacionistas.